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Tóquio: uma “criatura gigante” sem passado

Para a fotógrafa portuense Inês D’Orey, a capital do Japão é uma “criatura gigante que muda de pele à medida que vai crescendo”. O ritmo a que a cidade se renova e “muda de carne”, “muda de ossos”, é vertiginoso — tanto que “um edifício com mais de 30 anos é considerado obsoleto”, explicou Inês, em entrevista ao P3. “O clima instável criado por circunstâncias especiais ao longo da história do Japão (terramotos, tsunamis, bombardeamentos, ataques nucleares e uma rápida evolução tecnológica) conduziu ao enraizamento de uma cultura que encara os ciclos de destruição e de renovação como parte natural da vida”, conclui.

Em Maio de 2018, a fotógrafa passou duas semanas em Tóquio a registar o interior dos raros edifícios de traça antiga tradicional, erigidos entre os anos 30 e os anos 70 do século XX, que ainda se conservam na cidade. Porquê?

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“Tudo começou com o livro O Elogio da Sombra do prémio nobel japonês Junichiro Tanizaki”, explica a fotógrafa. O ensaio, que foi escrito em 1933, aborda o tema da estética tradicional japonesa — que assenta na ideia da utilização da sombra como recurso estético — e da influência do pensamento ocidental sobre a prática arquitectónica oriental. As imagens que compõem a série Do Not Sit Down exploram o conceito de luz e sombra, “minimalismo versus procura de luz”, no interior de relíquias arquitectónicas de Tóquio com o intuito de propor uma reflexão acerca da “transformação da identidade patrimonial da cidade contemporânea” na era da globalização.

Não foi tarefa simples encontrar estes espaços. Inês realizou grande parte do trabalho à distância, localizando os edifícios que pretendia fotografar e obtendo autorizações de cada uma das entidades ou proprietários. “[Os habitantes de Tóquio] tratam esses edifícios com um enorme respeito. Nem sequer me deixavam pousar o tripé directamente no chão.” Estes “microcosmos improváveis” plantados em Tóquio “são como peças de museu que não podem tocar-se”: “Não podemos sequer sentar-nos.”

Os caracteres nipónicos presentes nas imagens provêm de páginas do ensaio de Tanizaki, que Inês digitalizou para o efeito. “Incluí-as como metáfora do desaparecimento dos vestígios das suas ideias na arquitectura japonesa.”

O trabalho de Inês D’Orey encontra-se em exposição na Galeria Presença, no Porto, onde permanecerá até dia 12 de Janeiro de 2019.