Comunidade

Jornalista mogiana no Japão, Neide Hayama relata rotina durante a pandemia

Mesmo com alguns dos menores índices da Covid-19, o Japão determinou estado de emergência até o próximo dia 7, e tem ampliado as medidas de isolamento social que começaram a ser tomadas em fevereiro passado em algumas províncias. Há 15 anos, a jornalista mogiana Neide Hayama decidiu se mudar para o País, onde atua na área de comunicação. Casada, mãe de um filho, ela reside hoje em Yokohama, a segunda maior cidade japonesa, com mais de 3,57 milhões de habitantes, e distante apenas 30 minutos de Tóquio. Entre as ações tomadas, a rotina alternada e a crônica dos casos da doença, um detalhe chama atenção da mogiana, cujos pais residem em Mogi? a Covid-19 faz vítimas entre todas as classes sociais. “Um apresentador de noticiário da noite foi contaminado e a direção da TV fechou o prédio inteiro por alguns dias para desinfetar o local”, comenta. Na seguinte entrevista, ela destaca a demora que o mundo levará para deter os impactos sociais e econômicos da pandemia. “A revista Science, por exemplo, trouxe um artigo dizendo que isso acontecerá apenas em 2022”, diz. Ela conta sobre coisas do cotidiano, como o sumiço das máscaras do mercado japonês. A jornalista iniciou a carreira na Rádio Diário de Mogi, nos anos 1990, e integra a série de entrevistas feita por O Diário com mogianos que residem em outras cidades do mundo, e também enfrentam a pandemia surgida com o novo coronavírus, o Sars-Cov 2:

Como acontece o enfrentamento da Covid-19, no Japão, um país com uma conduta sanitária fortemente alicerçada? Quando essa doença passou a ser uma preocupação de fato?

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A preocupação veio quando o navio Diamond Princes permaneceu em quarentena no porto de Yokohama, cidade onde moro, e que está na Província de Kanagawa A cada dia os casos de infectados aumentavam e a preocupação também. O cruzeiro tinha 3,7 mil pessoas, entre passageiros e tripulantes, e mais de 500 tiveram a Covid-19. Então, depois da permanência deste cruzeiro, no final de fevereiro fomos surpreendidos com a decisão de fechar as escolas, conforme orientação determinada pelo governo.

Agora, em abril, as medidas estão sendo modificadas, em função do aumento de casos?

O que acompanha são algumas mudanças. Na televisão, artistas aparecem falando de casa, âncoras de noticiário estão em ambientes distintos. Tudo para manter distância.

Existe fiscalização das medidas, nas ruas?

Não existe fiscalização nas ruas e nem medidas, como a aplicação de multas porque não estamos em lockdown (confinamento), mas apenas em estado de emergência. No último dia 7 , sete províncias foram declaradas em estado de emergência, e ontem, essa medida foi declarada oficialmente para todo o País, embora tenha província com poucos casos.

O que fechou, no comércio, por exemplo.

Noto que à medida que o governo vai fechando o cerco e conscientizando as pessoas, lojas e restaurantes fecharam. E houve queda drástica de clientes. O governo de Tóquio, por exemplo, ordenou fechar academias, karaoke, casa noturna, entre outros locais que favorecem a aglomeração de pessoas. Supermercado, farmácia, hospital ou banco estão fora dessa lista. Já os restaurantes estão fazendo entregas para sobreviver. Aos comerciantes, a saída é online ou entrega de produtos. Uma rede de pizza deixa o pedido na porta do cliente, o entregador se afasta da porta e não há contato próximo.

Como é a adaptação a essas medidas?

Claro que é difícil se adaptar a essa situação, mas quando você vê atletas e artistas com a doença, você perceber que o vírus pode pegar qualquer um. Um apresentador de noticiário da noite foi contaminado. A TV fechou o prédio inteiro por alguns dias para desinfetar o local. Por isso, na televisão, os artistas aparecem falando de casa, âncoras de noticiário estão em ambientes distintos. Tudo para manter distância. E o principal recado é: higiene e isolamento são as palavras chaves para o enfrentamento da pandemia.

O que mudou, por exemplo, no transporte?

O transporte público continua, mas diminuiu bastante o número de usuários.

Os testes são de fácil acesso?

Para fazer o teste existe uma central de atendimento que faz triagem dos pacientes que poderão fazer o teste. O governo de Tóquio disponibiliza hotéis para pacientes com sintomas leves a fim de desafogar os hospitais. Por outro lado, ainda sentimos falta de máscaras descartáveis. Às vezes aparece nos mercados, mas não o suficiente para suprir a demanda dos consumidores. Há cartazes dizendo se tem ou se não tem as máscaras, justamente para impedir a aglomeração e filas.

Como está sendo a pandemia para as crianças e famílias?

Não foi e não está sendo fácil. No início de abril, quando começa o ano letivo aqui, a escola anunciou que os alunos com responsável poderiam ir para pegar os materiais e ouvir as orientações. Mas o primeiro-ministro Shonzõ Abe decretou estado de emergência e tudo isso foi cancelado. A escola enviou os livros e lição pelo correio e disponibilizou uma plataforma online, onde as crianças podem fazer as lições.

Qual é a principal preocupação, hoje?

O que mais preocupa é a saúde da família agora.

O que mudou na sua rotina?

Mudou tudo. Desde março evitamos sair de casa. Apenas vamos aos supermercado e brincar na praça uma vez por semana. E, assim mesmo, por pouco tempo. Uma hora mais ou menos. Também fazemos caminhada, mas rápida. Outro dia encontrei uma conhecida na praça e nos cumprimentamos de longe. Nem conversa teve. Estou trabalhando normalmente, em home office. Há outras mudanças. Por exemplo, cheguei a entrar numa loja de conveniência, mas como tinha mais de 10 pessoas saí imediatamente. A regra é evitar o contato com as pessoas. No banco, correio ou supermercado, os caixas têm um plástico para os funcionários se protegerem do contato com clientes. Também foram colocadas marcas no chão para as pessoas ficarem distantes na fila. Uma diferença é que não frequentamos restaurantes desde março. Com o decreto de emergência, muitos lugares estão fechados como karaokê, casa noturna, academias, e outros.

O Japão possui muitos brasileiros e, entre eles, muitos mogianos. Como essa comunidade está sendo mais afetada pela pandemia? Já há desemprego entre eles?

O desemprego existe sim, não só aqui. É algo inevitável no mundo. E assim como em outros locais, o governo anunciou ajuda financeira para as famílias e empresas.

No Brasil, o isolamento social é uma novidade. O que você diria a quem não está seguindo as recomendações?

Isolamento social é fundamental. Aqui, as reportagens mostraram japoneses que moram em Paris ou Malásia e eles acham que o Japão deveria endurecer mais com lockdown (uma medida que determina o confinamento e endurece as regras de mobilidade nas cidades). Na verdade, o mundo não estava preparado para esse vírus que não conseguimos enxergar. Trabalhar é importante, mas sem saúde, não trabalhamos. Com essa pandemia, estamos nos reinventando e mudando a forma de trabalho.

No Japão, o perfil dos infectados repete de outros países: são os mais idosos?

Sim, as vítimas são as pessoas mais idosas. Mas há reportagens contando que pacientes mais novos foram infectados.

Muito se fala sobre o mundo antes e após a pandemia da Covid-19. O que você acredita que virá no futuro, quando haverá o controle da doença?

Acho que se a pandemia acabar, vamos todos pular de alegria por conseguir fazer o normal: acordar, sair pra trabalhar, encontrar com amigos e familiares. E hoje o objetivo de todos deve ser vencer o que não conseguimos enxergar.

Como você tem mantido o contato com seus familiares e de seu marido no Brasil?

Por conversas feitas em vídeo.

O que você espera do futuro?

Eu assisti a um vídeo de Bill Gates, no Ted, falando sobre possibilidades de um vírus, como esse, se espalhar pelo mundo. Esse vídeo é de 2015. E tem um estudo americano, na revista Science, que indica que esse isolamento isolamento social acontecerá até 2022. Mas se descobrirem logo uma vacina tudo pode voltar como antes. Espero que os cientistas descubram logo a vacina para a gente sair e respirar o ar sem medo de contato com as pessoas.

Saiba um pouco mais sobre Yokahama

Com a segunda maior população do Japão, Yokohama faz fronteira com a Baía de Tóquio e está na região metropolitana da capital japonesa. Até o último dia 19, a província de Kanagawa, onde o município se insere, tinha 780 casos da doença e 17 mortes. Em Tóquio, que está a 39 quilômetros de distância desta cidade, o número de casos é 3.090 e 71 óbitos.

A cidade possui cerca de 3,7 milhões de moradores. A base da economia são as indústrias de transporte, biotecnologia e de semicondutores. Desde 1859, o porto de Yokohama é pilar da economia local. Entre seus pontos turísticos estão o Minato Mirai 21, um de seus arranha-céus que atraem milhares de visitantes anualmente. Ele possui 295,8 metros, e garante uma linda visão panorâmica da cidade portuária. O Yokohama Landmark Tower é um pouquinho maior: 296 metros e conhecido por reunir lojas, restaurantes e a bela paisagem oferecida pelo 69º andar ao turista. A cidade possui muitos parques, construído ao longo da história para aplacar os índices de poluição industrial. Um deles é o Harbor View Park, que possui um grande jardim de rosas e a visão privilegiada da entrada e saída dos navios do porto.